Panorama da Open Innovation & Startups no Brasil | 2016-2020

E a análise do Ranking das 100 empresas que mais fazem open innovation com startups no Brasil

Por Bruno Rondani, Rafael Levy e Carla Colonna

Desde 2016, o Ranking 100 Open Startups destaca, anualmente, as startups mais atraentes para o mercado corporativo. A partir de 2018, passamos a publicar, também, o ranking das empresas líderes em open innovation com startups no Brasil.

Inicialmente com 50 nomes, a categoria de empresas do Ranking atingiu, na edição do 2020, um nível de densidade suficientemente grande para que pudéssemos estender a lista para 100 e, desta forma, denominá-la TOP 100 Open Corps.

O Ranking 100 Open Startups e suas categorias são construídos a partir da coleta de dados primários, validados por um processo de verificação e auditoria das nossas equipes. Em outras palavras, o Ranking mede, de forma objetiva, o volume e a intensidade das relações de open innovation estabelecidas entre startups e empresas, permitindo espelhar os pontos dados às empresas e às startups.

Além do reconhecimento às empresas e startups que encabeçam as listas de TOP 100, o exercício de coleta de dados sobre a prática de open innovation com startups no Brasil traz benefícios para todo o mercado.

A partir da análise desses dados, conseguimos identificar os principais movimentos de inovação no país, sua densidade e concentração. Somos capazes de identificar quais são as modalidades de relacionamento mais comuns, os valores envolvidos, e sabemos que setores trazem mais oportunidades.

A maioria das bases de insights sobre mercado de startups considera aquelas que já foram identificadas e investidas por fundos de venture capital. Para o Ranking 100 Open Startups, nosso foco está concentrado nas startups em estágios mais iniciais, realizando suas primeiras parcerias institucionais no mercado e atingindo seus primeiros resultados. Afinal, nosso foco é a evolução do ecossistema de inovação como um todo. Nosso objetivo é mapear os próximos movimentos de inovação que definem as tendências e a convergência de investimento no estágio seguinte. Procuramos identificar: o que vem a seguir? Quais são as startups emergentes que definirão o cenário da indústria nos próximos anos? Quais são as empresas mais preparadas para a transformação de seus setores? Quais são as tendências de inovação mais intensas, que têm mais participantes empresas e startups?

Para buscar respostas para essas questões, nos debruçamos na análise dos dados coletados para a construção do Ranking 100 Open Startups ao longo dos últimos cinco anos. A seguir, apresentamos alguns fatos relevantes e até então desconhecidos sobre Open Innovation & Startups no Brasil.

Metodologia

A metodologia do Ranking 100 Open Startups dá pontos para as startups que mais despertam interesse em médias e grandes instituições a cada ano e, na outra ponta, para as médias e grandes empresas que mais estabelecem relações de negócio com startups.

São consideradas elegíveis para o Ranking startups validadas enquanto tal por especialistas do ecossistema, executivos de empresas e investidores, de acordo com a metodologia da 100 Open Startups. Além disso, as startups devem ter faturamento inferior a R$ 10 milhões no exercício fiscal do ano anterior à publicação do Ranking, não ter recebido mais de R$ 10 milhões em investimento direto e não ser controlada por grupo econômico, mas sim por empreendedores à frente do negócio.

Para a categoria TOP Open Corps, são consideradas elegíveis as empresas com faturamento superior a R$ 100 milhões ou mais de 100 funcionários.

Para compor a pontuação, são consideradas a quantidade e a intensidade dos relacionamentos declarados, categorizados em 16 tipos, divididos em quatro grandes grupos, com pontuação equivalente a 1, 5 ou 10 pontos, conforme detalhado na tabela a seguir:

Grupo Pontos Categoria
GRUPO A
Posicionamento
1 ponto
1. Capacitação e mentoria
2. Matchmaking e conexões
3. Reconhecimentos e premiações
4. Espaços de coworking
GRUPO B
Plataforma e Parcerias
5 pontos
5. Vouchers de serviço e tecnologia
6. Licenciamento de PI da grande empresa
7. Acesso a recursos não-financeiros
8. Acesso a base de colaboradores
9. Acesso a base de clientes e canais de vendas
GRUPO C
Desenvolvimento de fornecedores
10 pontos
10. Recursos para P&D e prototipagem
11. Licenciamento de PI da startup
12. Contratação de projeto piloto
13. Fornecimento de serviço ou produto inovador
GRUPO D
Investimento
10 pontos
14. Programa de aceleração
15. Investimento com participação acionária minoritária
16. Aquisição e incorporação

O método de classificação se baseia nas informações enviadas formalmente por meio da plataforma 100 Open Startups. As próprias startups e empresas informam quando um relacionamento é estabelecido, qual é a natureza desse relacionamento e dos dados de verificação. Nosso papel é verificar, com a outra ponta, a coerência das informações cadastradas e validar a pontuação.

Resumos dos principais aprendizados que a análise dos dados que compõem a categoria TOP 100 Open Corps nos traz e que serão discutidos em mais detalhes a seguir:

  1. Empresas contam cada vez mais com startups para inovar
  2. Executivos de empresas formam o maior grupo de profissionais que interagem com startups
  3. Empresas que procuram startups, na maior parte das vezes, encontram
  4. O número de empresas com acordos com startups supera o número de startups com acordo com empresas
  5. Relacionamento entre empresas e startups é multisetorial
  6. Open Innovation com startups é cada vez menos concentrado nas gigantes
Ranking Top 100 Open Startups 2020

Para acessar a lista navegável, acesse a página do Ranking TOP 100 Open Corps.

Principais Insights do Ranking 100 Open Corps

1- Empresas contam cada vez mais com startups para inovar:

Passamos por uma recente revolução nos modelos de inovação e empreendedorismo. Em 2003, Henry Chesbrough cunhou o termo Open Innovation para denominar o fenômeno da abertura do processo de inovação das grandes empresas em oposição ao modelo tradicional de Pesquisa & Desenvolvimento (P&D) fechado. Em 2011, Eric Ries publicou o método Lean Startup que, associado à metodologia de desenvolvimento do cliente criado por Steve Blank em 2007, passou a ser o novo paradigma para a criação de startups.

Ambos os fenômenos alteraram, em ritmo extremamente acelerado, o comportamento do ecossistema de inovação e empreendedorismo mundialmente. A partir de 2015, começaram a emergir os primeiros levantamentos internacionais sobre o que se passou a ser conhecido como Corporate Startup Engagement (CSE), com grandes empresas se abrindo para o relacionamento com startups e vice-versa, na busca de novos modelos de interação para a cocriação de inovações.

Passados cinco anos de coleta de dados do Ranking 100 Open Startups no Brasil, dentre todas as outras possibilidades de atores para se fazer open innovation, a busca de corporações por startups foi tão grande que o termo Open Innovation passou a ser utilizado quase como sinônimo de Corporate Startup Engagement. Daí o nosso ajuste linguístico e terminológico para Open Innovation com Startups para definir a prática.

Gráfico 1 - Crescimento da prática de Open Innovation com Startups

O conjunto de gráficos acima mostra o número de startups com relacionamento de open innovation com alguma empresa, o número de empresas com relacionamentos com startups, a pontuação no Ranking, segundo a classificação que mede intensidade no relacionamento, e o número de relacionamentos estabelecidos ano a ano.

Em 2016, apenas 82 empresas estabeleceram relacionamento de open innovation com startups. Hoje, são 1.635 empresas.

O volume de acordos de open innovation entre empresas e startups teve um crescimento exponencial de 20 vezes nos últimos 5 anos.

Esses números apontam para um crescimento da ordem de 20 vezes na prática de open innovation com startups no país em 5 anos e destoa largamente, de maior parte de levantamentos feitos sobre o tema no Brasil e em outros ecossistemas. Em geral, esses levantamento apontam para ordem de 100 empresas fazendo open innovation com startups em determinada país ou região.

Um explicação para isso é que nem todas as empresas identificadas na coleta da dados do Ranking 100 Open Corps possuem programas visíveis de open innovation, com sites e campanhas de divulgação ativas. Uma das grandes críticas que limitaram a adoção da open innovation no Brasil era o receio das empresas brasileiras em publicarem seus desafios estratégicos de forma aberta e, com isso, as primeiras plataformas no modelo de marketplace de open innovation não prosperaram no Brasil.

No método da 100 Open Startups, as empresas não precisam publicar abertamente suas demandas específicas de open innovation, podem participar de grandes desafios temáticos ou divulgar demandas apenas para startups selecionadas previamente ou filtradas a partir de critérios pré-estabelecidos. Dessa forma, com o incentivo de serem destacadas no Ranking, as startups e empresas registram ativamente seus contratos e relacionamentos sem receio da exposição do processo.

Outra explicação importante é o fato da natureza da relação com startups ser muito mais leve e flexível, se comparada a outras modalidades de open innovation - por exemplo, com universidades ou outras empresas de maior porte. Foi muito comum vermos, nos primeiros anos, startups realizarem provas de conceito ou demonstrações técnicas em campo, muitas vezes, sem firmar contratos ou envolver transferência de recursos.

2- Executivos de empresas formam o maior grupo de profissionais que interagem com startups:

Gráfico 2 - Grupos que interagem com startups

Como parte do método de construção do Ranking 100 Open Startups, o programa disponibiliza uma ferramenta de matchmaking, speed-dating e avaliação de startups. Qualquer pessoa participante do ecossistema pode acessar a plataforma digital de interação com as startups para estabelecer novas conexões.

Cinco anos atrás, quando iniciamos a coleta de dados do Ranking 100 Open Startups, terminamos o primeiro ano com 1.157 executivos, representantes de empresas com mais de 100 funcionários, que efetivamente interagiram com as startups cadastradas, buscando algum tipo de relacionamento. Esse número representava 29% do total dos participantes. Para a coleta de dados do Ranking de 2020, tivemos um total de 9.346 executivos desse mesmo grupo, o que representa cerca de 34% do total de pessoas que interagiram com startups.

Os demais grupos são formados por empreendedores de startups (29%), consultores (21%), investidores (6%), governo (3%) e demais atores do ecossistema (7%), num total de cerca de 28 mil pessoas que interagiram com as startups cadastradas.

Dentre os 9.346 executivos de empresas, os principais motivos pelo quais eles buscaram a interação com startups foram: procurar soluções inovadoras para oportunidades em sua empresa (84,1%), conhecer novas ideias e inovações (71%), auxiliar empreendedores no desenvolvimento de seus negócios (40,6%) e procurar oportunidades de investimento (36,6%).

Gráfico 3 - Motivos pelos quais executivos buscam startups

3- Empresas que procuram startups, na maioria das vezes, encontram:

Gráfico 4 - Crescimento da proporção de empresas com relações de OI com Startups

Segundo dados do Ranking de 2016, apenas 24% das empresas que interagiram com startups estabeleceram relacionamento com alguma startup. Em 2020, essa proporção subiu para 58%. O gráfico mostra o crescimento de 20 vezes em números absolutos de empresas com relacionamentos com startups, saindo de 82 para 1.635. Enquanto que o número de empresas que se engajaram na busca por startups cresceu de 337 para 2.825, ou seja, mais de 8 vezes.

Em 2020, 58% das empresas que buscaram startups para inovar encontraram ao menos uma startup parceira.

4- O número de empresas com acordos com startups supera o número de startups com acordo com empresas:

Gráfico 5 - Empresas e Startups com Relações de OI entre si

Interessante notar que, segundo os dados do Ranking de 2020, o número de empresas com acordos com startups superou o número de startups com acordos com empresas.

Desde que iniciamos a coleta, já era curioso que o número de empresas com relacionamento com startups era muito próximo do número de startups (108 startups com 82 empresas). Mas isso era facilmente explicado pelo esforço de coordenação executado pelo ecossistema em justamente trazer dezenas de empresas para que cada uma avaliasse centenas de startups curadas. Ano a ano, o número de empresas e startups com relacionamento cresceu em proporção quase igual, mas a diferença foi diminuindo pouco a pouco, de 24% em 2016 até 2% em 2019.

O que poderia explicar o estouro da diferença agora de 34% em favor das empresas?

Formulamos algumas hipóteses a serem validadas:

Hipotese #1: Boom de hubs físicos, criando efeito de super exposição de poucas startups para visita de muitas empresas.

Hipotese #2: O Ranking 100 Open Startups tem como parte do método dar visibilidade maior para as startups ranqueadas. Como o limite para participar do Ranking é faturamento ou investimento menor do que R$ 10 milhões, muitas startups ficam com exposição máxima por mais de um ano.

Hipotese #3: Muitas empresas novas adentram ao mercado de startups e escolhem as startups mais maduras no relacionamento com empresas, sem grande esforço de sourcing, e contam com as recomendações do ecossistema.

Hipotese #4: Trata-se de uma convergência natural relacionada ao aumento da maturidade das startups e a intenção das empresas de trabalhar com soluções mais maduras, as denominadas scale-ups.

Um grupo de hipóteses é relacionado a coordenação do ecossistema de startups; outro, ao aumento de maturidade das startups.

5- Relacionamento entre empresas e startups é multisetorial:

Gráfico 6 - Participação por setor nas relações de OI

Na análise dos dados do Ranking 2020, mapeamos 33 setores com densidade de pelo menos seis empresas que fizeram open innovation com startups, de forma que esse relacionamento entre empresas e startups se multisetorial e bem distribuído.

No universo das 1.635 empresas, os cinco setores com mais densidade foram:

  • Serviços Financeiros
  • Alimentos e Bebidas
  • Varejo, Comércio e Serviços de Distribuição
  • Energia
  • Serviços Profissionais e Comerciais

Entretanto, os setores de maior intensidade entre as TOP 100 foram:

  • Serviços Financeiros
  • Mineração e Metais
  • Energia
  • Cosméticos
  • Alimentos e Bebidas

Os setores que mais fazem open innovation com startups no Brasil são: Serviços Financeiros, Alimentos & Bebidas e Varejo.

6- Open Innovation com startups é cada vez menos concentrado:

Gráfico 7 - Concentração das relações de OI

As 100 empresas que mais fazem open innovation representam 38% do total dos relacionamentos entre empresas e startups no país, o que significa que as outras 1.535 respondem pelos outros 62%.

Esse resultado, assim como o aumento no número de empresas entre 2019 e 2020, é um indicativo de que há cada vez mais empresas adentrando a prática de open innovation com startups, ainda que em volume baixo de relacionamentos, gerando um efeito de cauda longa.

As TOP 100 Open Corps que mais fazem open innovation com startups no país representam 38% do total de contratos do mercado.

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Créditos

Equipe Técnica:

Marco Petucco
Rebecca Johnson
Claudio Mazzola

Realização:

Open Startups

Apoio

FAPESP
FINEP
BRIDGE ECOSYSTEM
P&D ANEEL