Um conduíte Open entre a inovação e a cultura corporativa

“Excelentes empreendedores não começam com ideias brilhantes ou insights e previsões extraordinárias. Eles começam como eu ou você poderíamos começar: com quem são, o que sabem e quem conhecem”.

São nessas palavras de Saras Sarasvathy, autora da lógica de ação empreendedora effectuation, e na vivência prática de Open Innovation, que trazem na bagagem desde os bancos da Unicamp, que os criadores da rede 100 Open Startups se inspiram.

De fato, é possível encontrar nas duas correntes de pensamento a força motriz que move as engrenagens do ecossistema gerido por eles.

Está lá na raiz do conceito de Open Innovation proposto por Henry Chesbrough em 2003 ser uma abordagem mais distribuída, mais participativa e mais descentralizada à inovação, baseada no fato de que o conhecimento útil é amplamente distribuído e nenhuma empresa, não importa o porte e quão capaz ela seja, consegue inovar de maneira eficaz por conta própria. Já na raiz do effectuation está a ideia de que é possível cocriar o futuro, empreendendo.

O ecossistema montado pela 100 Open Startups materializa esses dois conceitos, ao conectar startups a grandes companhias, executivos e investidores-anjo ou não. O objetivo comum é gerar valor associando novos modelos de negócios, tecnologias e práticas inovadoras. O que diminui as chances de fracasso, permitindo tentar muitas vezes, aumentando as chances de encontrar a próxima grande ideia que fará startup e grandes companhias prosperarem e os investidores se verem diante daquele unicórnio tão perseguido.

O objetivo de um bom programa de inovação, portanto, não é minimizar as despesas, mas maximizar a chance de encontrar a melhor forma de impactar o mercado e gerar lucro. E o processo - envolver um grupo de partes interessadas amplo e ativo e fazer as interações acontecerem – é parte importante para o amadurecimento de todo o ecossistema. Os números desse ano confirmam isso.

Os dados históricos do programa, medidos junto às startups que entraram nos rankings de 2016, 2017 e 2018, mostram que o modelo criado pela 100 Open Startups é uma via bem pavimentada, que leva inovação para as Open Corps ao mesmo tempo em que garante recursos para acelerar o crescimento e consolidar as startups.

Do ponto de vista de investimentos, por exemplo, os dados mostram que uma startup que pontua para entrar no ranking tem 2,5 vezes mais chances de captar funding. Historicamente, as startups ranqueadas aumentaram em 133% a captação de recursos após entrarem no ranking. E o valor médio de captação pós ranking declarado por startup foi de R$ 1,7 milhão.

Pode-se dizer que o ranking funciona como uma vitrine e como um imã: 55% das startups que se inscreveram no programa sem nunca ter captado recursos conseguiram seu primeiro investimento após serem ranqueadas em um dos três anos anteriores.

Atração para investidores

Os dados de investimento nas ranqueadas de 2019 (as Top 100 e as participantes dos rankings setoriais e desafios) são igualmente promissores: juntas, as 212 startups receberam mais de R$ 142 milhões em investimentos (anjo, seed, corporate, governo, fundações, family & friends).

Quase dois terços dos founders (63%) declararam que investiram o próprio dinheiro em seus empreendimentos. Mas não ficaram sozinhos: 39,2% receberam investimentos de anjos, 14,2% de fundos semente ou venture capital, 9% de corporações e 19,8% de aceleradoras. E continuam na busca: 80,7% das startups querem mais investimento para crescer.

O lado atraente das 100 Open Startups aparece quando se olha as cifras investidas por alguns dos grupos tradicionais. O aporte de investidores anjo, por exemplo, cresceu de R$24,6 milhões em 2018 para R$ 33,4 milhões em 2019. E o investimento seed foi de R$ 19,7 milhões em 2018 para R$ 24,6 milhões em 2019. E as Open Corps compareceram com R$ 12,8 milhões para o ranking de 2019, o triplo do dinheiro investido em 2018, que foi de R$ 4,25 milhões.

Impacto socioeconômico

A série histórica da 100 Open Startups reflete também um salto quantitativo e qualitativo do ecossistema de empreendimento e inovação brasileiro. Em 2016, primeiro ano do ranking, foram 106 startups e 86 grandes empresas que acumularam pontos para o ranking.

Esses números cresceram progressivamente para 275 startups e 243 grandes corporações em 2018, e deram um “salto quântico” de mais de 300% para a pontuação no ranking de 2019: 895 startups e 876 grandes empresas engajadas, que somaram mais de 5,4 mil relacionamentos auditados, desde uma simples mentoria até a contratação de projetos e investimento financeiro.

Os dados sobre as ranqueadas de 2019 mostram um grupo de empresas maduras – 82% estão em fase de mercado, com produto e faturamento – e um coletivo de founders igualmente maduro: 54,2% deles já empreenderam anteriormente e a maior fatia (31,9%) tem entre 31 e 35 anos. O faturamento somado desse grupo foi de mais de R$ 193 milhões em 2018, projetando crescimento para R$ 324 milhões em 2019. E 15% das 100 Open Startups 2019 são lideradas por mulheres.

O impacto socioeconômico das startups do ranking de 2019 não fica só em faturamento, mas também em geração de emprego: 1.888 colaboradores no final de 2018, que já chegaram a 2.455 nos primeiros cinco meses de 2019 (dados declarados por 177 ranqueadas). 41,4% das startups têm entre 5 e 10 funcionários.

Nesse item vale uma comparação. Um estudo recente publicado pela Lavca (Association for Private Capital Investment in Latin America) organização sem fins lucrativos dedicada a suportar o crescimento de private capital na América Latina e Caribe, mapeou o cenário de startups da região e mostrou que nos últimos dez anos, as 227 startups latino-americanas (incluindo as brasileiras) entrevistadas para o estudo geraram mais de 25 mil empregos na região. As 100 Open Startups de 2019 geraram em um ano 10% desse total, o que não uma informação a ser desprezada.

Tecnologias disruptivas

As chamadas tecnologias disruptivas – Inteligência Artificial (IA), Machine Learning, Big Data, Analytics, Internet das Coisas (IoT), SaaS (software-as-a-service), Realidade Aumentada (AR) e Realidade Virtual (VR) - que estão alimentando a transformação digital e a Indústria 4.0, aparecem como produto/serviço final ou como parte importante dos projetos de mais de 50% das 100 Open Startups.

Das 100 empresas da lista de Top 100 deste ano, 20% são fornecedoras diretas de novas tecnologias. Oito empresas do ranking oferecem soluções de AR/VR. No cenário de Big Data e Analytics, as startups focam em entendimento do consumidor e em soluções que combinam reconhecimento de imagem e Analytics, por exemplo.

Deep Learning para reconhecimento de imagens está presente em aplicações de negócios, segurança e monitoramento. Uso de drones combinado com Analytics de imagem em Deep Learning permite monitorar grandes áreas e instalações de infraestrutura. Aplicações de Industria 4.0 e monitoramento via IoT de grandes frotas ou grandes áreas mostra que as startups estão acompanhando o movimento global de transformação digital e, portanto, ainda mais capacitadas a agregar inteligência e inventividade para as Open Corps.

A química da ruptura

O dilema corporativo mais importante para prosperar no século XXI é encontrar a fórmula certa para ser disruptivo, em vez de se tornar vítima da ruptura.

É notório que os processos de gestão da inovação precisam evoluir. E estarem abertos à diversidade de fontes de conhecimento que podem ser mobilizadas para gerar uma nova dinâmica. As empresas devem implementar novas práticas de inovação que garantam limites permeáveis, a fim de aproveitar a diversidade de informações disponíveis, alavancando fontes externas.

O ecossistema construído pela 100 Open Startups prospera justamente porque sistematiza o processo. Todos que nele estão têm gerado vantagens competitivas, para si e para seus parceiros de negócio. E como todos têm a chance de ter contato com todos, bastando para isso estarem abertos ao diálogo franco e à troca de conhecimento, o ecossistema prospera.

O risco de seleção adversa de parceiros é minimizado pela extensa rede de avaliadores e a metodologia de pontuação que destaca as startups mais atraentes. E o de quebra de contratos, pelo conhecimento das partes com as quais cada startup transacionou, já que o mercado supõe que o objeto de uma troca deve ser um mínimo parcialmente conhecido pelos parceiros contratuais para que eles possam organizar uma transação. Nem tecnologia nem ideias são mercadorias; elas são o 'assunto' da transação.

Na The Shift acreditamos que a inovação e a ruptura resultam de movimentos de mudança contínuos e acelerados. E que tudo começa quando os átomos se juntam, atraídos por interesses em comum. A química da inovação e da ruptura requer certa dose de desprendimento e de união. Muitas vezes é preciso se livrar do peso da cultura corporativa e do legado para fazer a inovação ganhar tração. E acelerá-la abraçando a dinâmica e o frescor das startups. A combinação perfeita entre os elementos químicos é que promoverá a diversidade de substâncias necessária para acelerar o crescimento e a prosperidade no Século 21.

Em outras palavras, a soma de afinidade e alinhamento estratégico é meio caminho andado para a inovação, e talvez também a disrupção, acontecerem. Porque, no final do dia, a certeza da economia digital é que a ruptura é a única constante.


Cristina De Luca & Silvia Bassi – são diretoras editoriais da The Shift, a plataforma de jornalismo de dados e insights-as-a-service sobre inovação disruptiva da ÍON 89.

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